Eu vi o Zico jogar

Eu vi o mundo tomar forma pela televisão, mas desabrochei quando descobri que meu mundo não era apenas a TV, as quatro paredes do quarto, o apartamento, a vizinhança e o trajeto casa-escola.
As férias eram minha (nossa) aventura maior, aonde viajávamos e percebíamos aos poucos o prazer da viagem sem notar que ela era meramente a quebra da rotina, e não a descoberta do novo.
O novo surge um dia, como um estranho que bate à porta e lhe dá um susto. Um bonito susto.
Era 1986; um ano marcante demais, ao menos para mim. Completava 10 anos e enchia minha boca aos os outros e para mim mesmo: “Agora tenho 10 anos!”.
Meus pais tiveram a brilhante idéia de acatar uma sugestão da escola, da psicóloga, ou sei lá de quem fosse… (mas amplamente apoiada por mim): “Vamos te mandar para a colônia de férias!”
Fazenda Recreio Mugy; Foram entre 10 a 15 dias que mudaram para sempre a minha vida, aonde vivia o sonho de “tomar conta do meu nariz”. Entender que comer todas as guloseimas a mim ofertadas (entre elas uma CAIXA DE BIS, que pela primeira vez minha mãe me confiava plena e completamente ainda lacrada! Um verdadeiro deleite!) nos primeiros dias, faria com que faltassem para os próximos.
Aprender gatunamente que por mais que houvessem “regras” a se seguir, eu podia dribla-las e pela primeira vez fazer valer mais a minha vontade que a dos adultos;
Lá podia seguir outros gaiatos sem ser repreendido, podia fazer com que me seguissem e sentir orgulho da repreensão, pude pela primeira vez entender o sentido dos atos e comportamentos de um grupo e de sua força frente aos indivíduos. Pude criar, errar e perceber o que era errado por mim mesmo, até mesmo o exagero em errar.
Fui o líder da “revolução dos arcos e flexas”, fui do carinhosamente gentil ao mal-educadamente grosseiro, lá dancei música lenta e me apaixonei pela primeira vez. Lá acampei e tomei gosto real pelo rústico. Lá aprendi a ouvir e reproduzir “causos” impressionantes para entreter as pessoas em volta, Lá perdi (em parte) o receio de cantar e dançar. De lá voltei o projeto de homem que viria a ser. Quem sabe se lá voltasse, aprendesse mais rápido.
Tenho (que me recorde) somente uma fotografia no local, acho que tirada pela minha mãe, que me visitava lá durante o dia dos pais encucados e saudosos de seus “anjinhos” lhes mimarem e garantir que se encontravam saudáveis e “inteiros”. Na foto, displicente dentro de uma meia-piscina de água natural, uma expressão “Gioccondesca” me dá um ar de pintura medieval, sem muito ranso de alegria infantil, e um olhar altivo, penetrante voltado à pobre fotógrafa como quem diz: “o que você faz aqui me expionando? Não percebe que é minha casa, meu território? Aqui sou eu quem dá as cartas, aqui eu sou o Rei! Tire logo sua fotografia e deixe-me voltar aos meus afazeres!”

Quando voltei de lá, com 10 anos, percebi que havia algo muito maior e que eu precisava participar dele. Naquelas férias a Challenger explodiu na nossa frente na TV.
Naquelas férias o mundo deu voltas que eu me recordo com mais vivacidade. Naqulelas férias eu não queria mais ser supervisionado pela minha mãe. Foi meu primeiro, modesto abafado e quase inerte grito de independência.

No ano seguinte eu vi o Zico jogar. Achei sensacional. No ano conseguinte, voltamos para o Rio e as coisas aconteceram. O tempo passou e demorou até eu sentir aquele mesmo gosto de liberdade muitos anos depois, na viagem pra búzios, sozinho entre amigos.
Quisera ter feito mais viagens sozinho e ter me descoberto melhor.

Há coisas que eu me arrependo. As que eu não fiz.
Das dezenas de garotas que eu cortejei com os olhos e imaginação mas não tive coragem de me aproximar, das vezes em que não fui sensato o suficientemente para ser apenas mais um; Eu achava que precisava ser diferente, melhor, maior em praticamente tudo. Acabei diferente em algumas coisas, não melhor nem pior. Talvez apenas complicado o que era apenas simples.

Eu NÃO fui a um Show da Legião Urbana; Mas eu vi o Zico jogar. Eu não fui à Disney presenteado pelo meu pai, mas muitos anos depois visitei a Europa a custos do meu trabalho.
Ambos seriam ótimos, mas ambos tem seus valores. Não choro pelos meus “nãos”, mas vou tentar utiliza-los como exemplos para que no futuro não sejam como portas fechadas pelas quais passei a mão na maçaneta e não abri.

*Ah! Minha eloquencia informata (deu trabalho! me custou incomuns horas para conseguir quase com certeza a localização) me gerou a atualidade sobre a Fazenda Recreio Mugy. Por anos ainda, eles receberam colônias de férias da criançada de determinadas escolas de Brasília. Em 1999, enquanto eu estava no meio da Faculdade, o dono conseguiu que o Ibama aferisse ao local o status de Reserva Ecológica, por conter área preservada da vegetação original, microclima raro que permite a existência cada vez mais rara da flora e uma fauna raríssima descendende de populações sub-amazônicas, no entorno da localidade hoje explorada por mineradoras;
Ou seja. Já era um local especial e aparentemente os donos fizeram (ou fazem) o que podem para mante-lo assim. Se um dia tiver muita grana, vou dar uma chegada lá e quem sabe de alguma forma tentar fazer minha parte por um local que eu sinto que tanto fez por mim. Quem sabe com isso, não dou uma ajuda a outros Rodrigos, Zezinhos, Joãozinhos e afins a se descobrirem melhor, respeitar e conviver com a natureza e (principalmente) outras pessoas. Provável local da Fazenda Recreio Mugy

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